Foi há 10 anos: a 25 de Abril de 2010 – um ano após o meu primeiro, «Espíritos das Luzes», ter sido apresentado em Lisboa – iniciei a redacção do meu segundo romance, também de ficção científica, mas que, ao contrário do anterior, «pintado» com tons de fantasia e de história alternativa, tinha (e tem) como sub-género principal a distopia. Terminei-o exactamente quatro anos depois, a 25 de Abril de 2014. Sim, em muitos aspectos, escrevê-lo, concretizá-lo, teve muito de «libertação» para mim. Porém, seis anos passados, e após várias tentativas nesse sentido, ainda não está publicado, e duvido muito (aliás, já não acredito) que alguma vez venha a consegui-lo.

Também por isso, e tomando como pretexto esta (algo desanimadora) «efeméride», divulgo hoje pela primeira vez um excerto do meu (inédito) livro. Em que uma das personagens principais deambula por um espaço que evoca um determinado cineasta:

«Continuando a andar, absorta nos seus pensamentos, Celia nem se apercebeu de que ia na direcção do Jardim de Jarman. Este era um dos seus locais preferidos da cidade… os outros eram a sua casa e o edifício-sede do seu jornal. Assim fora designado em honra de Derek Jarman, um inglês do século anterior que se notabilizara enquanto realizador de televisão e de cinema, desenhador, encenador, homossexual e activista pelos direitos dos homossexuais… e também, curiosamente, enquanto jardineiro. E aquele jardim com o seu nome havia sido concebido e concretizado como uma espécie de museu permanente sobre a sua vida e a sua obra. Arranjos florais, esculturas, instalações e outras estruturas simbolizavam os seus filmes, os temas que abordaram, as personagens que retrataram. Lá estavam, em formas figurativas, realistas, ou abstractas: São Sebastião; os punks britânicos da época do Jubileu de Prata da Rainha Isabel II; Próspero, Miranda, António e as outras personagens de “A Tempestade” de William Shakespeare; o pintor Michelangelo Caravaggio; o Rei Eduardo II; o filósofo Ludwig Wittgenstein. Pelo sistema sonoro instalado no jardim ouviam-se continuamente música e palavras, ditas pelo próprio Jarman ou retiradas dos seus filmes. Existia outro circuito no jardim, uma estrada de tijolo, não amarela mas azul… porque este era o título do último filme dirigido por ele: já cego devido a problemas de saúde decorrentes da SIDA de que sofria e que acabaria por o matar, só conseguia “ver” uma superfície azul… e é apenas isso que se vê na sua derradeira obra. Celia Delill sentou-se num dos bancos do jardim, sentindo-se triste e perdida. Tinha os blues