Não são poucos os exemplos de como a ficção científica pode influenciar – e influencia mesmo – a ciência (e a tecnologia). Um dos mais recentes vem de Portugal e é da autoria de portugueses, apesar de estar (d)escrito em Inglês. É um artigo intitulado «Superávit Educacional – Direitos Humanos versus Políticas Educativas». Está incluído (entre as páginas 159 e 171) no livro «Patologias e Disfunções da Democracia no Contexto dos Media – Volume 2», organizado por Anabela Gradim, João Carlos Correia e Ricardo Morais, e editado este ano pelo LabCom-Comunicação e Artes da Universidade da Beira Interior.  

Eis a sinopse: «As metodologias da educação sempre foram tema de discussão e de controvérsia, que aumentaram com o advento dos sistemas de educação pública de massas e a sua relação com o conceito de força de trabalho “qualificada”. Em simultâneo, as mudanças sociais e a relação entre actores educativos, nomeadamente professores e estudantes, causaram a exigência de soluções para resolver o mau comportamento daqueles, que parece ser um problema intersticial na cultura ocidental. O uso de medicamentos como o Ritalin para lidar com este assunto levanta não apenas questões éticas relativas a estudantes actuais mas também a consequências humanas e sociais nas forças produtivas futuras. Posto simplesmente, é o preço da utilização de Ritalin não apenas os direitos das crianças mas também todo o potencial do futuro adulto como um trabalhador e um cidadão? Este trabalho explora como o corrente status quo nas políticas educativas respeitantes ao uso do Ritalin ou de outros medicamentos pode ser avaliado através de distopias sobre o tema, e investiga como as presentes políticas educativas afectam a identidade humana em nome tanto da economia como da conformidade do comportamento e da formatação da personalidade na escola. A metodologia de investigação abrange duas abordagens: a), análise transversal de narrativas distópicas seleccionadas; b), inclusão de um modelo quantum-baseado organizacional/social, adaptado através de uma ferramenta inspirada na matemática, Reductio ad dystopia. O uso de ficção especulativa em modelos quantum-baseados respeitantes a dinâmicas sociais é, tanto quanto sabemos, pioneiro e pode ser uma metodologia exequível para explorar preocupações sociais e assuntos éticos, já que as distopias providenciam detalhes suficientes que não só servem como variáveis mas podem ser justapostas com outras reais e presentes.»

Este artigo tem quatro autores, e três deles são nomes conhecidos e mesmo consagrados – sem dúvida apreciados – do panorama da FC & F portuguesa: Ana da Silveira Moura (também conhecida como AMP Rodriguez), João Barreiros e João Seixas, e ainda Natália Cordeiro. A criadora e organizadora tanto do projecto (antologia colectiva de contos) «Winepunk» como do (primeiro) Encontro Internacional de História Mundial «e se?» (realizado na Reitoria da Universidade do Porto a 25 de Novembro do ano passado) assim esclareceu, explicou, o perfil e os propósitos deste trabalho: «Parti de dois pressupostos: primeiro, que a imaginação é uma capacidade neurocognitiva de valor para a sobrevivência como a lógica e o raciocino matemático nos quais se funda o método experimental, algo que tem sido comprovado nos últimos anos; segundo, que aquela noção empírica de que os artistas e criativos “prevêem” o futuro na suas obras pode ter uma base cientifica e mensurável para tal. Ou seja, que a imaginação pode ser uma base para modelos científicos tal como a lógica. Para tal, é uma questão de escolher a metodologia e os dados que se utilizam. Eu parti do campo mais óbvio que será a literatura especulativa. Aqui recorri ao Barreiros, que é o maior motor de busca humano na área que conheço, para explorar um tema especifico. Como estou a aplicar esta metodologia a aspectos sociais e legais, o Seixas foi adicionado à equipa, e sendo que eu quis fazer uma interface com modelos até agora de carácter matemático-químico a minha orientadora e “chefe” (Natália Cordeiro) foi igualmente adicionada, pois eu confio muito no conhecimento dela para me avisar se estou a forçar a nota no raciocínio. Não resisto a dizer que se este modelo for aceite, podemos afirmar que terão sido portugueses a adicionar uma terceira metodologia à ciência, além da lógica cartesiana e do método experimental: o usarem-se dados de imaginação como dados fiáveis para modelos da realidade, sociológicos, pedagógicos e outros.»

É um objectivo indubitavelmente muito (excessivamente?) ambicioso, mas na leitura do artigo podem encontrar-se os argumentos e os factos, a lógica, que a justificam. De qualquer forma, merece uma maior, crescente, divulgação e discussão. Em especial agora, quando se pode dizer que todos estamos a ser objecto de uma (autêntica?) redução à distopia.