José Maria Eça de Queiroz ficou famoso por ter sido – ou tentado ser – um exemplar escritor realista, por ter tentado (e de certa forma conseguido?) aplicar na literatura – e, logo n(uma parte d)a arte – os mesmos critérios, princípios e técnicas do método científico. As suas descrições de pessoas e de locais são de um pormenor e de um rigor por vezes levado ao extremo e à exasperação, mas tal, afinal, mais não terá sido do que um estilo, uma marca autoral consciente e assumida para assim (procurar) obter credibilidade, tanto para a sua obra como para si próprio – já houve quem sugerisse que Eça era como que um antropólogo ao (d)escrever. Porém, e apesar de ele privilegiar os factos sobre as ficções quando construía as suas… ficções (isto é, baseava-se em «tipos», em categorias humanas mais ou menos facilmente identificáveis e reconhecíveis quando criava as suas personagens), ele não deixou de, numa ocasião ou outra, de «dar asas à (sua) imaginação» para o levar a situações e a enredos clara e decididamente fora dos limites demasiado estritos, e mesmo restritivos, da realidade quotidiana.

Terá sido esta sua faceta de ocasional mas virtuoso maestro do maravilhoso e do misterioso que me levou a consagrá-lo como que em «santo patrono» das duas antologias colectivas de contos de ficção científica e de fantástico que eu concebi e organizei, mais concretamente como autor das citações iniciais que dão como que o «tom» e o «mote» para o que vem a seguir. Na primeira dessas antologias, «A República Nunca Existiu!», publicada em 2008, escolhi o seguinte trecho: «O Partido Republicano em Portugal nunca apresentou um programa, nem verdadeiramente tem um programa. Mais ainda, nem o pode ter: porque todas as reformas que, como Partido Republicano, lhe cumpriria reclamar já foram realizadas pelo liberalismo monárquico. (…) A república não pode deixar de inquietar o espírito de todos os patriotas. Ela seria a confusão, a anarquia, a bancarrota. Além disso (é de urgente patriotismo falar com franqueza), a república entre nós não é uma questão de política interna, mas de política externa. Um movimento insurreccional em Lisboa, triunfante ou semitriunfante, teria no dia seguinte um exército de intervenção marchando sobre nós da fronteira monárquica de Espanha.» São excertos de um artigo de Eça de Queiroz intitulado «Novos factores da vida política portuguesa», publicado em 1890 na Revista de Portugal, e justifica-se realçar o (parcial) acerto da previsão do escritor: efectivamente, a implantação da república significou confusão, anarquia e bancarrota (e censura, violência, mortos, uma participação desastrosa na Primeira Guerra Mundial) mas não uma invasão por parte de Espanha. Aliás, a ideia (e o receio) de uma (nova, contemporânea) ocupação militar por «nuestros hermanos» seria desenvolvida por Eça no seu conto «A catástrofe», também conhecido como «A Batalha do Caia».    

Na segunda dessas antologias, «Mensageiros das Estrelas», publicada em 2012, escolhi o seguinte trecho: «(…) Ideias justas, exprimidas de uma forma sóbria, não nos interessam por aí além; o que nos encanta são as emoções excessivas traduzidas com um grande fausto plástico de linguagem. (…) O que nos atrai é a fantasia, sob todas as suas formas, desde a canção até à caricatura; também, na arte, havemos sobretudo produzido líricos e satíricos. Mantivemo-nos de olhos levantados para as estrelas. (…) Somos homens de emoção, não de raciocínio. (…)» São excertos do prefácio de Eça de Queiroz escrito para a primeira edição francesa d’«O Mandarim», publicada em 1883. Um texto, aliás, que constitui um importante elemento no meu artigo «A nostalgia da quimera» e na demonstração de que «o fantástico é o género dominante na literatura portuguesa»… tanto que o título vem dele! Justifica-se pois alargar a transcrição: «”Fazemos esta nobre tarefa não por uma inclinação natural da inteligência mas por um sentimento de dever literário… ia quase dizer de dever público. (…) (Mas se o artista português) não puder por vezes fazer uma escapadela para o azul morrerá bem depressa da nostalgia da quimera. Eis porque, mesmo depois do naturalismo, escrevemos ainda contos fantásticos, dos verdadeiros, daqueles onde há fantasmas e onde se reencontra ao canto das páginas o Diabo, o amigo Diabo, esse delicioso terror da nossa infância católica. Assim, ao menos durante todo um pequeno volume, não sentimos mais a incómoda submissão à verdade, a tortura da análise, a impertinente tirania da realidade. Estamos em plena licença estética. (…)” Apenas três anos mais tarde, Eça de Queiroz como que resumiria o seu pensamento sobre esta matéria a uma só frase notável que colocou como subtítulo de “A Relíquia”: “Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia”.»

O Movimento Internacional Lusófono organizou em 2019, por proposta minha, o congresso «Eça de Queiroz, nos 150 anos do Canal do Suez», em que se apresentaram comunicações de um conjunto diversificado de autores tendo como pretexto a viagem do escritor ao Médio Oriente (Egipto e não só) para, principalmente, assistir à inauguração da revolucionária via de ligação entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho. Neste ano de 2020 o MIL volta a celebrar o grande escritor a propósito de, sim, outra efeméride de século e meio com ele relacionada. E em 2021 assinalar-se-á outra que, muito provavelmente, nos suscitará também uma iniciativa! O criador de «Os Maias» é quase inesgotável nos conteúdos e nas consequências, implicações, das suas obras, e destas muitos «mantos», quais camadas, podem ser retiradas. (Também no Queiroz150.