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	<title>Transcendence &#8211; Simetria FC&amp;F</title>
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	<description>Associação Portuguesa de Ficção Científica e Fantástico</description>
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		<title>Transcendence: Singularidade improvável</title>
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		<dc:creator><![CDATA[João Campos]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 20 May 2014 15:07:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<div><a href="http://1.bp.blogspot.com/-cIpywB5tIu4/U3tTHuPmKSI/AAAAAAAAHok/q81sVxFS0Gs/s1600/transcendence_poster.jpg"><img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/-cIpywB5tIu4/U3tTHuPmKSI/AAAAAAAAHok/q81sVxFS0Gs/s1600/transcendence_poster.jpg" height="200" width="135"></a></div><div>Haver&#225; poucos temas t&#227;o caros &#224; fic&#231;&#227;o cient&#237;fica como o tema da Intelig&#234;ncia Artificial. As abordagens diferem, mas praticamente todas tomam como ponto de partida a cria&#231;&#227;o humana de uma intelig&#234;ncia computorizada que, assumindo consci&#234;ncia de si mesma e transcendendo em larga medida as capacidades cognitivas dos seus criadores, provoque altera&#231;&#245;es profundas na Humanidade, ao ponto de a tornar irreconhec&#237;vel para quem tenha vivido antes do advento dessa intelig&#234;ncia. De forma muito resumida, esta &#233; a defini&#231;&#227;o de <i>singularidade</i>, termo cunhado por John von Neumann ainda nos anos 50 e popularizado mais tarde por Vernor Vinge - e quando &#224;s consequ&#234;ncias desse acontecimento que muitos cr&#234;em inevit&#225;vel, a fic&#231;&#227;o cient&#237;fica tem-se esfor&#231;ado por imaginar v&#225;rias possibilidades para esse mundo p&#243;s-singularidade. No seu legado, o g&#233;nero tem intelig&#234;ncias artificiais inescrut&#225;veis, ben&#233;volas, confusas e mal&#233;volas - ao ponto de se tornarem numa amea&#231;a para a Humanidade, e de assumirem o papel de arautos da sua extin&#231;&#227;o. Na sua primeira experi&#234;ncia como realizador, Wally Pfister, director de fotografia premiado que se notabilizou pelo seu trabalho com Christopher Nolan, optou por explorar os territ&#243;rios vastos e difusos da singularidade - mas alterou a designa&#231;&#227;o para <i><b>Transcendence</b></i>.</div><div><br></div><div><i>Transcendence</i>&#160;recupera o tema da Singularidade para um futuro aparente e indistinto (nada, para todos os efeitos, distingue o tempo narrativo do nosso tempo real) no qual a investiga&#231;&#227;o na &#225;rea da Intelig&#234;ncia Artificial se encontra a avan&#231;ar a bom ritmo. Um dos principais rostos dessa investiga&#231;&#227;o &#233; Will Caster (Johnny Depp), um cientista t&#227;o conceituado como popular, por mais que procure evitar essa popularidade (sem grande sucesso, a avaliar pela palestra que vemos, pelos aut&#243;grafos que estudantes lhe pedem, e pela entrevista &#224; revista <u>Wired</u>).&#160;</div><div><br></div><div><a href="http://1.bp.blogspot.com/-WD_gMj05v2Y/U3tXMNclBOI/AAAAAAAAHow/l0AeGZ1qiO8/s1600/transcendence_01.png"><img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/-WD_gMj05v2Y/U3tXMNclBOI/AAAAAAAAHow/l0AeGZ1qiO8/s1600/transcendence_01.png"></a></div><div><br></div><div>De natureza essencialmente discreta e com um pequeno toque de paran&#243;ia, Caster &#233;, de certa forma, um cientista <i>puro</i>: o seu &#250;nico prop&#243;sito &#233; investigar pela pura descoberta do conhecimento e das possibilidades que a tecnologia encerra, sem quaisquer considera&#231;&#245;es &#233;ticas ou de aplicabilidade pr&#225;tica do seu trabalho, e sem quaisquer desejos de mudar o mundo. Tais sonhos pertencem &#224; sua mulher, Evelyn (Rebecca Hall), mais extrovertida e social; quanto &#224;s quest&#245;es &#233;ticas, estas ficam a cargo de Max Waters (Paul Bettany), um dos amigos mais pr&#243;ximos do casal.</div><div><br></div><div><a href="http://1.bp.blogspot.com/-SKMuQZJUGpo/U3tbcyXSUrI/AAAAAAAAHo8/ngU7mgfmCXU/s1600/transcendence_02.png"><img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/-SKMuQZJUGpo/U3tbcyXSUrI/AAAAAAAAHo8/ngU7mgfmCXU/s1600/transcendence_02.png"></a></div><div><br></div><div>Mas a investiga&#231;&#227;o que Caster est&#225; a desenvolver para a cria&#231;&#227;o de um computador inteligente e auto-consciente - e que j&#225; alcan&#231;ou algum sucesso no projecto PINN (acr&#243;nimo para <i>Physically Independent Neural Network</i>) -&#160;n&#227;o &#233; vista com bons olhos por todos os sectores da sociedade. Um grupo intitulado RIFT (<i>Revolutionary Independence From Technology</i>) &#233; especialmente ruidoso na sua oposi&#231;&#227;o &#224; investiga&#231;&#227;o no ramo da IA - e leva a cabo uma s&#233;rie de ataques terroristas coordenados que culminam na destrui&#231;&#227;o de v&#225;rios laborat&#243;rios, na morte de dezenas de cientistas em institui&#231;&#245;es privadas e governamentais, e num ataque a Will no qual este sofre um ferimento letal.&#160;</div><div><br></div><div><a href="http://3.bp.blogspot.com/-163adBNOpyA/U3td3b5PRqI/AAAAAAAAHpI/v1bab4M64H4/s1600/transcendence_03.png"><img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/-163adBNOpyA/U3td3b5PRqI/AAAAAAAAHpI/v1bab4M64H4/s1600/transcendence_03.png"></a></div><div><br></div><div>Perante a morte inevit&#225;vel do seu marido, Evelyn decide arriscar um procedimento improv&#225;vel, apenas testado com sucesso moderado num macaco: fazer o <i>upload</i>&#160;da consci&#234;ncia de Will para os processadores qu&#226;nticos do PINN, dando-lhe uma nova vida cibern&#233;tica quando o seu corpo falhar. Apesar dos seus dilemas &#233;ticos, Max ajuda-a nesse projecto - e &#233; num misto de espanto e de horror que v&#234; Will renascer <i>online</i>, na posse de todas as suas mem&#243;rias e com uma capacidade cognitiva inconceb&#237;vel. Mas ser&#225; este novo Will a mesma <i>pessoa</i>&#160;que era antes, na sua manifesta&#231;&#227;o f&#237;sica original? E&#160;uma vez ligado &#224; Internet e com acesso virtualmente ilimitado a todos os sistemas <i>online</i>, o que ir&#225; fazer?</div><div><br></div><div><a href="http://4.bp.blogspot.com/-f1BbkOWXHdk/U3tqOevewUI/AAAAAAAAHpY/S66sR52Dgyw/s1600/transcendence_04.png"><img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/-f1BbkOWXHdk/U3tqOevewUI/AAAAAAAAHpY/S66sR52Dgyw/s1600/transcendence_04.png"></a></div><div><br></div><div>A resposta a esta pergunta, dada nas cenas finais do filme, ser&#225; talvez o ponto mais positivo de <i>Transcendence</i>&#160;(apesar do <i>plot hole</i>&#160;aparente que envolve uma "Chekov's Gun" bastante imaginativa), a par da compet&#234;ncia est&#233;tica e visual de Pfister. Todo o filme acaba por ser transportado n&#227;o pela interpreta&#231;&#227;o do seu actor principal, Johnny Depp (quase t&#227;o inexpressivo aqui como Keanu Reeves, e sem o ar de alheamento perp&#233;tuo deste), mas por Rebecca Hall, num desempenho emotivo e veros&#237;mil. O restante elenco, de qualidades ineg&#225;veis, surge aqui francamente subaproveitado - Paul Bettany, Kate Mara, Cillian Murphy e Morgan Freeman poderiam ter dado muito mais ao filme, se o argumento o tivesse exigido.&#160;</div><div><br></div><div><a href="http://3.bp.blogspot.com/-v5s0SGRSSyo/U3trw5nohBI/AAAAAAAAHpk/B7P-xRi6mes/s1600/transcendence_05.png"><img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/-v5s0SGRSSyo/U3trw5nohBI/AAAAAAAAHpk/B7P-xRi6mes/s1600/transcendence_05.png"></a></div><div><br></div><div>E este surge minado por alguma inconsist&#234;ncia narrativa, por uma s&#233;rie de problemas l&#243;gicos que nunca resolve (como se conseguiu levar Brightwood para aquele estado sem chamar a aten&#231;&#227;o de <i>ningu&#233;m</i>? E que raio de <i>plot point</i>&#160;&#233; o da energia no final?), e por uma indecis&#227;o aparente em rela&#231;&#227;o &#224; mensagem que quer transmitir e &#224; hist&#243;ria que quer contar. &#201; ineg&#225;vel que <i>Transcendence</i>&#160;tem pertin&#234;ncia nos dias que correm, quando as sociedades ocidentais est&#227;o cada vez mais dependentes dos seus <i>gadgets</i>&#160;tecnol&#243;gicos e da sua liga&#231;&#227;o constante &#224; rede - abdicando de no&#231;&#245;es de privacidade e de seguran&#231;a por algo difuso que boa parte das pessoas n&#227;o entende como funciona, e quando o virtual e o <i>online</i>&#160;parece invadir todos os dom&#237;nios das nossas vidas.&#160;</div><div><br></div><div><a href="http://2.bp.blogspot.com/-V7zK0qKA5CQ/U3tsIsqx7BI/AAAAAAAAHps/cXyF5g-Yr1I/s1600/transcendence_06.png"><img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/-V7zK0qKA5CQ/U3tsIsqx7BI/AAAAAAAAHps/cXyF5g-Yr1I/s1600/transcendence_06.png"></a></div><div><br></div><div>&#201; pena que nunca se entenda muito bem qual &#233; o &#226;ngulo que a hist&#243;ria pretende explorar: se a pertin&#234;ncia dos argumentos tecn&#243;fobos ou dos entusiastas da singularidade, se das quest&#245;es de privacidade que as tecnologias modernas suscitam, e sobre as quais a maior parte das pessoas n&#227;o se d&#225; ao trabalho de reflectir, se da natureza da consci&#234;ncia, se da eterna oposi&#231;&#227;o entre humanidade e intelig&#234;ncia artificial, se da f&#225;bula moral futurista ao estilo de Dr. Frankenstein da era da Web 2.0. Aparentemente, Wally Pfister e Jack Paglen tamb&#233;m n&#227;o se conseguiram decidir - e, por via das d&#250;vidas, acabaram por incluir <i>tudo</i>. O resultado, ainda que se revele interessante e, a espa&#231;os, capaz de suscitar uma ou outra reflex&#227;o, acaba por nunca se elevar &#224;s alturas que poderia alcan&#231;ar.</div><div><br></div><div><a href="http://1.bp.blogspot.com/-NuEFeCNSois/U3tsW7d-wzI/AAAAAAAAHp0/8nDW69Q1h8A/s1600/transcendence_07.png"><img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/-NuEFeCNSois/U3tsW7d-wzI/AAAAAAAAHp0/8nDW69Q1h8A/s1600/transcendence_07.png"></a></div><div><br></div><div>E a isso n&#227;o &#233; alheio o facto de todos estes temas que <i>Transcendence</i>&#160;mistura j&#225; terem todos sido tratados na fic&#231;&#227;o cient&#237;fica moderna, e <i>quase sempre</i>&#160;de forma mais completa, coerente, pertinente e intrigante. Intelig&#234;ncias artificiais <i>gone rogue</i>&#160;s&#227;o centrais a filmes como <i>2001: A Space Odyssey</i>&#160;e <i>Terminator</i>&#160;(e muitos outros, claro); j&#225; a d&#250;vida sobre a condi&#231;&#227;o humana perante o artificial surgem bem exploradas em <i>Blade Runner</i>&#160;e <i>Ghost in the Shell</i>&#160;- sendo talvez o filme de Mamoru Oshii a melhor e mais relevante obra sobre o tema. Isto sem esquecer, claro, o subtexto filos&#243;fico e religioso (aqui t&#227;o martelado por Pfister e Paglen) de <i>The Matrix&#160;</i>ou da reinven&#231;&#227;o contempor&#226;nea de <i>Battlestar Galactica</i>. E quanto ao relacionamento entre Homem e M&#225;quina... ainda h&#225; pouco tempo vimos <i>Her</i>, de Spike Jonze, a extrapolar o tema para as rela&#231;&#245;es amorosas, e a ser distinguido com um &#211;scar da Academia para Melhor Argumento original no processo. Note-se que nem sa&#237;mos da fic&#231;&#227;o cient&#237;fica audiovisual - muito ainda se poderia dizer a prop&#243;sito de obras de William Gibson, Greg Bear, Vernor Vinge, Dan Simmons e muitos outros autores.&#160;</div><div><br></div><div><a href="http://3.bp.blogspot.com/-hVyvmGB3Z8Y/U3tsj76g1bI/AAAAAAAAHp8/GA7xgI-DvWc/s1600/transcendence_08.png"><img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/-hVyvmGB3Z8Y/U3tsj76g1bI/AAAAAAAAHp8/GA7xgI-DvWc/s1600/transcendence_08.png"></a></div><div><br></div><div>Enfim, ningu&#233;m poder&#225; retirar a <i>Transcendence</i>&#160;o m&#233;rito de ter ambi&#231;&#227;o e de querer explorar a partir de v&#225;rios &#226;ngulos diferentes uma tem&#225;tica fascinante, complexa e, acima de tudo, pertinente pela sua actualidade. As ideias est&#227;o de facto l&#225; - &#233; uma pena que a execu&#231;&#227;o da premissa acabe por ficar muito aqu&#233;m do seu potencial, minada por uma narrativa d&#233;bil e inconsistente. Pfister e Paglen parecem querer incorporar conceitos d&#237;spares, que funcionariam talvez em filmes diferentes - o <i>cautionary tale</i>, o subtexto religioso, a defini&#231;&#227;o de humanidade, o debate &#233;tico, o jogo de ant&#237;teses entre real e virtual, natural e sint&#233;tico, raz&#227;o e emo&#231;&#227;o -, mas que, juntos na mesma narrativa, acabam por gerar mais ru&#237;do do que qualquer outra coisa. &#201; um bom esfor&#231;o, com uma est&#233;tica curiosa e algumas no&#231;&#245;es interessantes, mas podia ser muito mais do que isso. <b>06/10</b></div><br><div><b>Transcendence (2014)</b></div><div><b>Realiza&#231;&#227;o de Wally Pfister</b></div><div><b>Argumento de Jack Paglen</b></div><div><b>Com Johnny Depp, Rebecca Hall, Paul Bettany, Morgan Freeman, Cillian Murphy, Kate Mara e Clifton Collins Jr.</b></div><div><b>119 minutos</b></div>]]></description>
		
		
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		<title>Um enredo transcendente</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Luís Richheimer de Sequeira]]></dc:creator>
		<pubDate>Tue, 13 May 2014 01:38:20 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Atenção: montes de spoilers no texto abaixo! Faço investigação em inteligência artificial e todas as semanas aturo um grupo chato de transumanistas que colocam Ray Kurzweil no seu altar e acendem-lhe velinhas e pedem-lhe que traga a Singularidade para as suas casas (só vou a esses debates para os provocar). Por isso, fui ver o filme [&#8230;]]]></description>
		
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