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	<title>Das palavras o espaço &#8211; Simetria FC&amp;F</title>
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		<title>Das palavras o espaço ::</title>
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		<pubDate>Sun, 06 Jan 2013 01:26:21 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<a href="http://fromwords.blogspot.com/"><img src="http://fantasticas.odisseias.net/images/das_palavas_o_espaco.png" alt="Das palavras o espa&#231;o" align="right"></a><br><h1>Querido L&#237;der</h1>A dor nos pulsos, n&#227;o muito forte, mas inc&#243;moda, fez-me abrir os olhos. Isso e o cheiro pestilento, a fezes e urina. Olho em volta; estes tipos da Inquisi&#231;&#227;o sabiam o que faziam. A simples vis&#227;o desta masmorra aterroriza qualquer um. Aconteceria certamente comigo, se eu n&#227;o soubesse que estou num sonho.<br>O espa&#231;o &#233; circular, iluminado por tochas, que espalham uma luz amarelada e produzem sombras que flutuam. Presos pelos p&#233;s e m&#227;os &#224;s argolas chumbadas na parede encontram-se v&#225;rios homens e mulheres, acusados dos mais diversos crimes, a grande maioria dos quais certamente n&#227;o cometeram. Na posi&#231;&#227;o em que se encontram, podem observar os tormentos infligidos aos seus companheiros de infort&#250;nio&#8230; Uma ideia brilhante!<br>A ac&#250;stica da masmorra &#233; perfeita. Quando um supliciado grita, a sua voz ressoa nas paredes e ab&#243;bada de pedra, e parece que o eco continua, mesmo depois de a pessoa torturada ter parado de gritar. Quando os gritos param, acima do crepitar dos archotes consegue ouvir-se o ru&#237;do dos ossos a serem partidos, ao que se segue nova s&#233;rie de gritos lancinantes.<br>No meio do recinto est&#227;o os aparelhos de tortura, onde os prisioneiros s&#227;o sujeitos a uma diversidade de procedimentos, todos com o objectivo de arrancar uma confiss&#227;o, maximizando a dor infligida. Cortar, arrancar, queimar, furar, esmagar, o &#250;nico cuidado &#233; fazer com que o torturado n&#227;o morra, porque obviamente um morto n&#227;o pode confessar nada. H&#225; os carrascos, que n&#227;o se podem queixar de falta de trabalho, um frade que sentado a uma mesa consulta os processos e escreve as confiss&#245;es que sejam produzidas, e por vezes mais um religioso tentando for&#231;ar ao arrependimento algum herege mais contumaz.<br>Terei de falar com Malik depois de despertar. Ser&#225; bom que tenha uma explica&#231;&#227;o para me fazer aparecer no sonho como prisioneiro. Poderia ter aparecido como o frade escritur&#225;rio ou como um dos torturadores; obteria a mesma informa&#231;&#227;o, mas aparecer como torturador dava-me muito mais gozo!<br>A rotina do processo &#233; simples mas eficaz: um prisioneiro &#233; solto das argolas na parede, conduzido a um dos aparelhos e preso a ele. Depois de torturado, o que pode durar mais ou menos tempo consoante as respostas que for dando (ou n&#227;o) ao inquisidor, &#233; levado para uma cela onde ficar&#225; aguardando nova sess&#227;o de tortura ou o auto-de-f&#233;, e outro prisioneiro toma o lugar dele. E outro ainda &#233; trazido de fora e preso &#224; parede, para observar e ficar aterrorizado.<br>J&#225; assisti &#224; tortura de uma velha a quem partiram ambas as pernas, que foi levada por dois dos carrascos, as pernas inertes arrastadas pelo ch&#227;o, um rapaz que ficou sem metade dos dentes e as articula&#231;&#245;es dos bra&#231;os e pernas deslocadas, uma mulher jovem queimada com ferros em brasa&#8230;<br>Tirei algumas ideias interessantes sobre t&#233;cnicas de interrogat&#243;rio e est&#225; na altura de interromper o sonho. Dou in&#237;cio &#224; rotina de acordar:<br><br>&#8220;<i>Do sonho &#224; realidade,</i><br><i>do poss&#237;vel &#224; verdade,</i><br><i>Tr&#234;s, dois, um, zero</i>.&#8221; <br><br>Espero ver-me de novo sentado no laborat&#243;rio na cave do pal&#225;cio presidencial, com os t&#233;cnicos &#224; minha volta apressando-se a libertar-me dos cabos e el&#233;ctrodos que me ligam &#224; m&#225;quina dos sonhos, como sucedeu nas experi&#234;ncias anteriores. Mas nada acontece, e continuo nesta masmorra fria, escura e mal cheirosa.<br>Repito na minha cabe&#231;a a litania: &#8220;<i>Do sonho &#224; realidade</i> / <i>do poss&#237;vel &#224; verdade</i> /<i>Tr&#234;s, dois, um, zero</i>.&#8221;<br>&#192; palavra zero, sinto como um estalido no meu c&#233;rebro, mas em vez de despertar come&#231;o a ouvir a voz de Malik a ressoar na minha cabe&#231;a:<br>&#8220;Querido L&#237;der&#8221; (&#233; imagina&#231;&#227;o minha ou h&#225; um tom ir&#243;nico na sua invocat&#243;ria?)<br>&#8220;Est&#225; a ouvir uma mensagem que implantei no seu c&#233;rebro, para ser activada quando decidisse sair do sonho. Venho comunicar-lhe que houve uma pequena mudan&#231;a de planos. A m&#225;quina onde foi ligado desta vez, embora parecida por fora com a m&#225;quina de sonhar que j&#225; tinha utilizado v&#225;rias vezes, era na realidade uma coisa completamente diferente: era uma m&#225;quina de viajar no tempo!&#8221;<br>&#8220;Por outras palavras, Querido L&#237;der, voc&#234; n&#227;o est&#225; a sonhar&#8230; foi <i>efectivamente </i>transportado para a masmorra da Inquisi&#231;&#227;o. Por esta altura deve ter j&#225; assistido &#224; tortura de meia d&#250;zia de desgra&#231;ados, e se o conhe&#231;o bem, deve ter pensado que alguns dos instrumentos poderiam ser &#250;teis aqui nas masmorras do pal&#225;cio presidencial. Deixe-me tentar adivinhar: o Potro? A Roda? A Virgem de Ferro? Que pena n&#227;o poder conhecer a sua escolha&#8230;&#8221;<br>Como se atreveu ele a fazer isto? <i>A mim</i>? N&#227;o sabe que a mulher e o filho ser&#227;o torturados at&#233; &#224; morte &#224; sua frente se me acontecer alguma coisa?<br>&#8220;Sei o que est&#225; a pensar, Querido L&#237;der. Que eu, ao fazer isto, terei sacrificado a minha mulher e o meu filho. Mas eu vou-lhe explicar, para que at&#233; essa pequena satisfa&#231;&#227;o desapare&#231;a do seu esp&#237;rito. Com a m&#225;quina do tempo, viajei ao futuro, a um tempo onde a clonagem &#233; corrente e fabriquei um clone&#8230; seu! Sim, um clone do Querido L&#237;der! Id&#234;ntico nos m&#237;nimos pormenores. Assim, para os assassinos a seu mando, o nosso Querido L&#237;der continua a dirigir este pa&#237;s. Ir&#225; nos pr&#243;ximos dias emitindo ordens &#8211; dadas por mim &#8211; que lentamente ir&#227;o acertando o muito que h&#225; para corrigir. Ali&#225;s, j&#225; come&#231;ou: a minha fam&#237;lia j&#225; est&#225; confortavelmente em casa, e n&#227;o na pris&#227;o abjecta para onde os tinha atirado. <br>Adeus, Querido L&#237;der. Desejo-lhe uma boa estadia nesse local.&#8221;<br>A mensagem acabou. O meu c&#233;rebro ficou como vazio. Dois soldados v&#234;m agora buscar o prisioneiro ao meu lado, para ser interrogado. Um deles olha para mim, abre a boca num riso de dentes podres e diz-me: &#8220;N&#227;o tenhas pressa, tu vais j&#225; a seguir&#8221;. Cospe-me na cara, resmunga &#8220;Feiticeiro do diabo!&#8221; e benze-se.<br>Fico &#224; espera, imerso num desespero crescente&#8230; Dentro em breve vir&#227;o desprender-me das argolas para ser interrogado&#8230;]]></description>
		
		
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Na posi&#231;&#227;o em que se encontram, podem observar os tormentos infligidos aos seus companheiros de infort&#250;nio&#8230; Uma ideia brilhante!<br>A ac&#250;stica da masmorra &#233; perfeita. Quando um supliciado grita, a sua voz ressoa nas paredes e ab&#243;bada de pedra, e parece que o eco continua, mesmo depois de a pessoa torturada ter parado de gritar. Quando os gritos param, acima do crepitar dos archotes consegue ouvir-se o ru&#237;do dos ossos a serem partidos, ao que se segue nova s&#233;rie de gritos lancinantes.<br>No meio do recinto est&#227;o os aparelhos de tortura, onde os prisioneiros s&#227;o sujeitos a uma diversidade de procedimentos, todos com o objectivo de arrancar uma confiss&#227;o, maximizando a dor infligida. Cortar, arrancar, queimar, furar, esmagar, o &#250;nico cuidado &#233; fazer com que o torturado n&#227;o morra, porque obviamente um morto n&#227;o pode confessar nada. H&#225; os carrascos, que n&#227;o se podem queixar de falta de trabalho, um frade que sentado a uma mesa consulta os processos e escreve as confiss&#245;es que sejam produzidas, e por vezes mais um religioso tentando for&#231;ar ao arrependimento algum herege mais contumaz.<br>Terei de falar com Malik depois de despertar. Ser&#225; bom que tenha uma explica&#231;&#227;o para me fazer aparecer no sonho como prisioneiro. Poderia ter aparecido como o frade escritur&#225;rio ou como um dos torturadores; obteria a mesma informa&#231;&#227;o, mas aparecer como torturador dava-me muito mais gozo!<br>A rotina do processo &#233; simples mas eficaz: um prisioneiro &#233; solto das argolas na parede, conduzido a um dos aparelhos e preso a ele. Depois de torturado, o que pode durar mais ou menos tempo consoante as respostas que for dando (ou n&#227;o) ao inquisidor, &#233; levado para uma cela onde ficar&#225; aguardando nova sess&#227;o de tortura ou o auto-de-f&#233;, e outro prisioneiro toma o lugar dele. E outro ainda &#233; trazido de fora e preso &#224; parede, para observar e ficar aterrorizado.<br>J&#225; assisti &#224; tortura de uma velha a quem partiram ambas as pernas, que foi levada por dois dos carrascos, as pernas inertes arrastadas pelo ch&#227;o, um rapaz que ficou sem metade dos dentes e as articula&#231;&#245;es dos bra&#231;os e pernas deslocadas, uma mulher jovem queimada com ferros em brasa&#8230;<br>Tirei algumas ideias interessantes sobre t&#233;cnicas de interrogat&#243;rio e est&#225; na altura de interromper o sonho. Dou in&#237;cio &#224; rotina de acordar:<br><br>&#8220;<i>Do sonho &#224; realidade,</i><br><i>do poss&#237;vel &#224; verdade,</i><br><i>Tr&#234;s, dois, um, zero</i>.&#8221; <br><br>Espero ver-me de novo sentado no laborat&#243;rio na cave do pal&#225;cio presidencial, com os t&#233;cnicos &#224; minha volta apressando-se a libertar-me dos cabos e el&#233;ctrodos que me ligam &#224; m&#225;quina dos sonhos, como sucedeu nas experi&#234;ncias anteriores. Mas nada acontece, e continuo nesta masmorra fria, escura e mal cheirosa.<br>Repito na minha cabe&#231;a a litania: &#8220;<i>Do sonho &#224; realidade</i> / <i>do poss&#237;vel &#224; verdade</i> /<i>Tr&#234;s, dois, um, zero</i>.&#8221;<br>&#192; palavra zero, sinto como um estalido no meu c&#233;rebro, mas em vez de despertar come&#231;o a ouvir a voz de Malik a ressoar na minha cabe&#231;a:<br>&#8220;Querido L&#237;der&#8221; (&#233; imagina&#231;&#227;o minha ou h&#225; um tom ir&#243;nico na sua invocat&#243;ria?)<br>&#8220;Est&#225; a ouvir uma mensagem que implantei no seu c&#233;rebro, para ser activada quando decidisse sair do sonho. Venho comunicar-lhe que houve uma pequena mudan&#231;a de planos. A m&#225;quina onde foi ligado desta vez, embora parecida por fora com a m&#225;quina de sonhar que j&#225; tinha utilizado v&#225;rias vezes, era na realidade uma coisa completamente diferente: era uma m&#225;quina de viajar no tempo!&#8221;<br>&#8220;Por outras palavras, Querido L&#237;der, voc&#234; n&#227;o est&#225; a sonhar&#8230; foi <i>efectivamente </i>transportado para a masmorra da Inquisi&#231;&#227;o. Por esta altura deve ter j&#225; assistido &#224; tortura de meia d&#250;zia de desgra&#231;ados, e se o conhe&#231;o bem, deve ter pensado que alguns dos instrumentos poderiam ser &#250;teis aqui nas masmorras do pal&#225;cio presidencial. Deixe-me tentar adivinhar: o Potro? A Roda? A Virgem de Ferro? Que pena n&#227;o poder conhecer a sua escolha&#8230;&#8221;<br>Como se atreveu ele a fazer isto? <i>A mim</i>? N&#227;o sabe que a mulher e o filho ser&#227;o torturados at&#233; &#224; morte &#224; sua frente se me acontecer alguma coisa?<br>&#8220;Sei o que est&#225; a pensar, Querido L&#237;der. Que eu, ao fazer isto, terei sacrificado a minha mulher e o meu filho. Mas eu vou-lhe explicar, para que at&#233; essa pequena satisfa&#231;&#227;o desapare&#231;a do seu esp&#237;rito. Com a m&#225;quina do tempo, viajei ao futuro, a um tempo onde a clonagem &#233; corrente e fabriquei um clone&#8230; seu! Sim, um clone do Querido L&#237;der! Id&#234;ntico nos m&#237;nimos pormenores. Assim, para os assassinos a seu mando, o nosso Querido L&#237;der continua a dirigir este pa&#237;s. Ir&#225; nos pr&#243;ximos dias emitindo ordens &#8211; dadas por mim &#8211; que lentamente ir&#227;o acertando o muito que h&#225; para corrigir. Ali&#225;s, j&#225; come&#231;ou: a minha fam&#237;lia j&#225; est&#225; confortavelmente em casa, e n&#227;o na pris&#227;o abjecta para onde os tinha atirado. <br>Adeus, Querido L&#237;der. Desejo-lhe uma boa estadia nesse local.&#8221;<br>A mensagem acabou. O meu c&#233;rebro ficou como vazio. Dois soldados v&#234;m agora buscar o prisioneiro ao meu lado, para ser interrogado. Um deles olha para mim, abre a boca num riso de dentes podres e diz-me: &#8220;N&#227;o tenhas pressa, tu vais j&#225; a seguir&#8221;. Cospe-me na cara, resmunga &#8220;Feiticeiro do diabo!&#8221; e benze-se.<br>Fico &#224; espera, imerso num desespero crescente&#8230; Dentro em breve vir&#227;o desprender-me das argolas para ser interrogado&#8230;]]></description>
		
		
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		<pubDate>Mon, 31 Dec 2012 20:32:00 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<a href="http://fromwords.blogspot.com/"><img src="http://fantasticas.odisseias.net/images/das_palavas_o_espaco.png" alt="Das palavras o espa&#231;o" align="right"></a><br><h1>Viagem no Tempo</h1><br><div>&#8220;Os labirintos que cria o tempo (...)&#8221;</div><br>Terminada a sess&#227;o da oficina de escrita criativa, Carlos Neves fechou o moleskine, guardou a caneta e saiu da sala.<br>&#160;&#8220;Viagens no tempo!&#8221;, pensava ele. &#8220;Estes tutores t&#234;m uma falta de imagina&#231;&#227;o! E eu com tanta coisa que fazer, como vou arranjar tempo para escrever um conto de 3 p&#225;ginas sobre viagens no tempo. J&#225; est&#225; tudo escrito sobre viagens no tempo!&#8221;<br>E com estes pensamentos sombrios, onde dominava a sensa&#231;&#227;o angustiante da falta de tempo, Carlos ia caminhando em direc&#231;&#227;o &#224; esta&#231;&#227;o do Metro, passando em revista mentalmente todas as tarefas que o aguardavam quando chegasse &#224; Faculdade: duas aulas para preparar, uma tese de mestrado e dois trabalhos finais de curso para ler, testes para corrigir... Ia ser uma semana infernal!<br>Chegou ao fim do dia cansad&#237;ssimo, e com um mont&#227;o de tarefas ainda inacabadas. Jantou no restaurante que fica na esquina da rua onde mora, aceitando a sugest&#227;o do empregado - &#8220;a carninha &#224; jardineira est&#225; muito boa, sot&#244;r&#8221; - e empurrando a comida com uma cerveja.<br>Entrou em casa e esparramou-se no sof&#225; da sala, sem se dar ao traba lho de ligar a televis&#227;o. Foi ent&#227;o que os seus olhos pousaram sobre o livro que tinha trazido de casa da tia Leoc&#225;dia.<br>&#160; &#160; &#160; &#160; &#160; &#160; &#160; &#160; &#160; <br><div>--- x ---</div><div><br></div>Aquela tia sempre fora o membro da fam&#237;lia mais <i>freak</i>. Apaixonada por tudo o que cheirasse a esot&#233;rico, j&#225; tinha viajado at&#233; &#224; India e ao Tibete, e andava sempre pelos alfarrabistas &#224; procura de livros antigos sobre magia, ocultismo e coisas semelhantes. Quando era mi&#250;do, Carlos adorava ir a casa dela, porque ela vestia umas roupas esquisitas e havia sempre uns objectos estranhos em cima das mesas e velas ou paus de incenso a arder. Era um s&#237;tio fixe!<br>H&#225; cerca de 15 dias, desapareceu. Deixou de telefonar ao irm&#227;o, j&#225; velhote, que come&#231;ou a ficar preocupado e contactou Carlos. Este foi com o tio a casa de Leoc&#225;dia. Entraram e tirando algum p&#243; sobre a superf&#237;cie dos m&#243;veis, tudo parecia normal, at&#233; chegarem &#224; cozinha. Aqui encontraram no ch&#227;o de tijoleira um c&#237;rculo com cerca de um metro de di&#226;metro feito com pedrinhas, no exterior do qual, e na direc&#231;&#227;o dos 4 pontos cardeais, estavam posicionados quatro pequenos casti&#231;ais onde pareciam ter ardido completamente as velas. E na bancada da cozinha havia um livro de capa preta de aspecto antigo.<br>O tio resmungava: &#8220;Esta Leoc&#225;dia, sempre com a mania das magias e dos feiti&#231;os. Onde &#233; que se ter&#225; metido?&#8221;<br>&#8220;Tio Janu&#225;rio, n&#227;o se preocupe, a tia provavelmente foi viajar e n&#227;o se deu ao trabalho de avisar, parece que n&#227;o conhece a sua irm&#227;, amanh&#227; ou depois recebe um postal dela de Katmandu ou da Patag&#243;nia ou de outro s&#237;tio desses&#8221;, ia dizendo Carlos para sossegar o velhote.<br><div>Abriu o livro e verificou que as p&#225;ginas estavam escritas &#224; m&#227;o, numa caligrafia regular e bonita, que imediatamente reconheceu ser a letra da sua tia. A primeira p&#225;gina tinha um t&#237;tulo, em g&#243;tico caligrafado: &#8220;Compila&#231;&#227;o de Feiti&#231;os&#8221;. Meteu o livro debaixo do bra&#231;o e levou-o<br><br><div>--- x ---</div></div><div><br></div>Carlos foi ao arm&#225;rio no canto da sala, pegou num copo de bal&#227;o e serviu-se de uma dose generosa de brandy. Colocou no leitor de CDs o &#8220;Concerto para clarinete&#8221; de Mozart e sentou-se novamente no sof&#225;. Bebeu um gole de brandy, pousou o copo e pegou no livro da tia Leoc&#225;dia.<br>Come&#231;ava com um &#237;ndice, listando metodicamente os feiti&#231;os constantes do livro. Vagamente divertido, Carlos foi lendo uma longa sequ&#234;ncia de feiti&#231;os, para fazer aparecer o sol num dia de chuva, para encontrar objectos perdidos, para eliminar o mau olhado causado por inveja, para influenciar outra pessoa numa reuni&#227;o de neg&#243;cios... E foi quando j&#225; estava a achar um pouco mon&#243;tona aquela longa sucess&#227;o de receitas que Carlos chegou a uma linha que o fez parar: &#8220;Feiti&#231;o para voltar atr&#225;s no tempo sabendo o que sei hoje&#8221;.<br>Era a solu&#231;&#227;o para os seus problemas, pensou Carlos. Recuando uns dias, uma semana seria bastante, teria tempo para fazer as coisas que se acumulavam com os prazos perigosamente curtos, entre elas escrever o estuporado conto sobre Viagens no Tempo.<br>Foi f&#225;cil encontrar o feiti&#231;o, porque a tia tinha paginado o livro, usando numera&#231;&#227;o romana (!), a meio do topo de cada p&#225;gina. E Carlos come&#231;ou a ler:<br><br><i>No ch&#227;o de pedra o c&#237;rculo temporal</i><br><i>com 5 palmos atrav&#233;s</i><br><i>desenhar&#225;s com fuligem de queimar madeira.</i><br><i>Ao Norte e ao Sul por&#225;s sal;</i><br><i>Ao Este e Oeste por&#225;s cinza.</i><br><i>No centro te colocar&#225;s e n&#227;o</i><br><i>poder&#225;s ter metal sobre ti.</i><br><i>Chamar&#225;s ent&#227;o as for&#231;as temporais</i><br><i>lendo a seguinte invoca&#231;&#227;o</i><br><i>:</i><br><i>&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Tempo que existes desde antes do princ&#237;pio</i><br><i>&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Tempo que existir&#225;s depois do fim</i><br><i>&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Atrav&#233;s de ti passa tudo o que se sente</i><br><i>&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Leva-me para tr&#225;s ____ voltas do Sol</i><br><i>&#160;&#160;&#160;&#160;&#160; Mas s&#243; o meu corpo, n&#227;o toques na minha mente.</i><br><br>Pareceu a Carlos uma receita f&#225;cil de executar. E resolveu passar &#224; ac&#231;&#227;o. Foi &#224; lareira que tinha funcionado pela &#250;ltima vez na noite da passagem do ano, e recolheu alguma cinza, que guardou num envelope. Foi &#224; cozinha e tirou o saleiro do arm&#225;rio onde guardava os temperos. Voltou &#224; lareira e retirou tr&#234;s ou quatro fragmentos de madeira carbonizada. Levou tudo para o hall da entrada, &#250;nica divis&#227;o do apartamento que tinha o ch&#227;o de pedra, todas as outras tinham soalho de madeira, e a cozinha e casa de banho eram pavimentadas com mosaico. Tirou ainda da despensa um rolo de corda que tinha comprado para substituir a do estendal da roupa, substitui&#231;&#227;o essa que constituia um dos seus projectos sucessivamente adiados.<br>Cuidadosamente mediu ent&#227;o cinco palmos de corda, que cortou. Dobrou esse peda&#231;o de corda ao meio, e utilizou essa corda dupla como um compasso primitivo que lhe permitiu, usando um peda&#231;o de madeira carbonizada, tra&#231;ar no ch&#227;o de pedra um c&#237;rculo com o di&#226;metro requerido.<br>Foi ainda buscar uma b&#250;ssola para localizar os pontos cardeais e l&#225; colocou o sal e a cinza como escrito no feiti&#231;o.<br>Tirou as chaves do bolso, o rel&#243;gio do pulso e o anel do dedo, e descal&#231;ou-se, n&#227;o fosse dar-se o caso de as anilhas met&#225;licas dos atacadores dos sapatos afectarem o processo. Verificou se estava tudo em ordem, pegou no livro, colocou-se no meio do c&#237;rculo e o seu &#250;ltimo pensamento antes de come&#231;ar a ler a invoca&#231;&#227;o foi que para, entre outras coisas, escrever um conto sobre Viagens no Tempo ia ele pr&#243;prio viajar no tempo!<br>E leu a invoca&#231;&#227;o &#224;s for&#231;as temporais, terminando com &#8220;Leva-me para tr&#225;s sete voltas do Sol / Mas s&#243; o meu corpo, n&#227;o toques na minha mente.&#8221;<br>Carlos n&#227;o sentiu que alguma coisa se tivesse passado. Inconscientemente, estava &#224; espera de luzes, barulho, nem ele sabia o qu&#234;.<br>Saiu do c&#237;rculo, cal&#231;ou-se com alguma dificuldade &#8211; doeram-lhe as articula&#231;&#245;es dos joelhos &#8211; e quando se levantou sentiu uma tontura. Al&#233;m disso, ao passar a l&#237;ngua pelos dentes detectou uns intervalos estranhos.<br>Foi &#224; casa de banho, e quando se olhou no espelho sobre o lavat&#243;rio, sentiu um choque: aquela imagem n&#227;o era ele! A cara cheia de rugas, o cabelo ralo e totalmente branco, e quando abriu a boca logo verificou a falta de v&#225;rios dentes. Tinha envelhecido!<br>Carlos regressou &#224; sala para se acalmar. Pegou novamente no livro da tia e leu com aten&#231;&#227;o o feiti&#231;o que tinha acabado de fazer, para ver se inadvertidamente teria falhado algum passo do procedimento. Mas n&#227;o, tinha seguido tudo &#224; risca. Foi ent&#227;o que reparou no canto inferior direito da p&#225;gina uma pequenina seta. Virou a folha e no topo da p&#225;gina de tr&#225;s estava escrito:<br><br><i><u>Aviso muito importante</u>!</i><br><i>O recuar no tempo afecta o delicado equil&#237;brio do mundo. Antes de voltar atr&#225;s no tempo, o praticante deve primeiro realizar um feiti&#231;o que proteja o seu corpo das consequ&#234;ncias mal&#233;ficas desse desequil&#237;brio provocado, fazendo essas consequ&#234;ncias ser descarregadas sobre as almas do Inferno, a quem n&#227;o far&#225; grande diferen&#231;a esse acr&#233;scimo nas penas.</i><br><br>E seguia-se o texto que devia ser lido com essa finalidade, e que Carlos j&#225; nem leu, porque obviamente n&#227;o iria funcionar depois do recuo temporal!<br>Portanto as &#8220;consequ&#234;ncias mal&#233;ficas&#8221; do tal desequil&#237;brio tinham-no feito envelhecer uns quantos anos. Diabo de &#8220;delicado equil&#237;brio&#8221;!<br>Respirou fundo duas ou tr&#234;s vezes, e pegou novamente no livro, para continuar a ler o Indice. A tia Leoc&#225;dia era completamente maluca. Tinha copiado feiti&#231;os como quem copia receitas de cozinha! Feiti&#231;os para fazer um pardal cantar como um rouxinol, para se tornar invisivel (este tinha um aviso que dizia ser o efeito limitado no tempo), para fazer desaparecer os cabelos brancos (n&#227;o seria melhor uma visita ao cabeleireiro, pensou Carlos) e subitamente encontrou um t&#237;tulo que dizia &#8220;Feiti&#231;o para viajar ao tempo que ainda n&#227;o foi&#8221;.<br>Deve ser um processo para viajar ao futuro, pensou ele. Talvez eu possa avan&#231;ar os 7 dias que recuei e reverter esta situa&#231;&#227;o. A p&#225;gina era a LXIII, e Carlos come&#231;ou a folhear o livro quase em p&#226;nico at&#233; chegar &#224; p&#225;gina LXV; e a anterior era a LXII; e um calafrio percorreu-lhe o corpo enquanto lentamente se convencia de que faltava a folha correspondente &#224;s p&#225;ginas LXIII e LXIV.<br>E de s&#250;bito, como num filme, reviu a cozinha da tia Leoc&#225;dia, o c&#237;rculo de pedras no ch&#227;o, as velas queimadas, e a conclus&#227;o foi &#243;bvia: a tia tinha de facto viajado, mas para o futuro. E tinha rasgado a folha do livro para que mais ningu&#233;m o pudesse fazer!<br>Carlos suspirou, e decidiu ir deitar-se. No dia seguinte teria que telefonar para uma cl&#237;nica a marcar um <i>check-up</i>; n&#227;o sabia quantos anos teria envelhecido, mas o estado dos seus dentes n&#227;o pressagiava nada de bom. E teria de arranjar uma explica&#231;&#227;o plaus&#237;vel para o seu novo aspecto.<br>Raios partissem a tia Leoc&#225;dia!]]></description>
		
		
		
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		<title>Das palavras o espaço ::</title>
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		<dc:creator><![CDATA[Das palavras o espaço]]></dc:creator>
		<pubDate>Sat, 22 Dec 2012 23:58:09 +0000</pubDate>
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		<category><![CDATA[Sem categoria]]></category>
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					<description><![CDATA[<a href="http://fromwords.blogspot.com/"><img src="http://fantasticas.odisseias.net/images/das_palavas_o_espaco.png" alt="Das palavras o espa&#231;o" align="right"></a><br><h1>Os anos cinzentos: ficar ou partir</h1><i>Descri&#231;&#227;o de um epis&#243;dio verdadeiro. Quem assistiu lembrar-se-&#225;&#8230; Um exemplo das v&#225;rias vidas de que era tecida a vida de um estudante do T&#233;cnico nos anos cinzentos&#8230;</i><br><br><br>Durante parte da minha vida de aluno do T&#233;cnico morei no Lar da Associa&#231;&#227;o de Estudantes (hoje intitulado Rep&#250;blica A Desordem dos Engenheiros). Era uma experi&#234;ncia pr&#225;tica de auto-governo aquela que ent&#227;o t&#237;nhamos naquele 5&#186; andar da Avenida Almirante Reis. Desassete estudantes de diversos cursos e anos, com diferentes origens geogr&#225;ficas e sociais, partilhando alegrias e tristezas, medos e esperan&#231;as. A minha forma&#231;&#227;o foi certamente muito influenciada por todos os colegas com quem vivi aqueles anos, de muitos dos quais fiquei amigo para o resto da vida. E n&#227;o &#233; de estranhar que as ideias dominantes naquela casa fossem dos diversos matizes de esquerda.<br>(No 4&#186; andar, logo abaixo de n&#243;s, era um lar de idosas da par&#243;quia local. A coexist&#234;ncia era pac&#237;fica; sempre que faz&#237;amos uma festa, onde se previa um n&#237;vel de ru&#237;do superior ao habitual, l&#225; ia uma delega&#231;&#227;o bater &#224; porta das &#8220;velhinhas&#8221; pedir antecipadamente desculpa pelo inc&#243;modo que ir&#237;amos causar. E nunca tivemos uma resposta que n&#227;o fosse: &#8220;Fazem bem, voc&#234;s s&#227;o jovens, t&#234;m que se divertir&#8230;&#8221;. Em contrapartida, sempre que encontr&#225;vamos uma delas no r&#233;s-do-ch&#227;o, com o cesto das compras, a olhar desconsolada para a porta do elevador com o letreiro &#8220;Avariado&#8221; &#8211; o que acontecia com bastante frequ&#234;ncia &#8211; &#233;ramos n&#243;s que transport&#225;vamos o cesto at&#233; ao 4&#186; andar. Um bom exemplo de conviv&#234;ncia inter-geracional!)<br>Um dos residentes, L.F., j&#225; conhecia a pol&#237;cia pol&#237;tica &#8211; e a PIDE a ele, naturalmente. N&#227;o me recordo se tinha chegado a ir a julgamento, mas durante a sua deten&#231;&#227;o tinha sido submetido &#224; famigerada tortura do sono durante 6 dias. Entre v&#225;rias sequelas, tinha ficado afectado por ins&#243;nias persistentes, s&#243; conseguia adormecer pelas seis ou sete da manh&#227;, e dormia toda a manh&#227; e parte da tarde. O seu "hor&#225;rio de funcionamento" era assim bastante diferente dos restantes utentes do Lar.<br>Por essa altura eu fazia parte do Coro da Academia dos Amadores de M&#250;sica, ainda dirigido por Lopes Gra&#231;a. Os membros do coro constituiam um conjunto bastante heterog&#233;neo, alguns&#160; licenciados, empregados de escrit&#243;rio, oper&#225;rios, donas de casa, alguns estudantes. E &#233; precisamente numa noite de ensaio, na sede da Academia na Rua Nova da Trindade, que um desses estudantes, dirigente associativo na Faculdade de Ci&#234;ncias, me diz: "Conheces o L.F.? Pirou-se! J&#225; est&#225; na B&#233;lgica."<br>"O L.F.? Mas esse tipo mora l&#225; no Lar!"<br>N&#227;o devo ter estado muito atento durante o resto do ensaio. Peguei o el&#233;ctrico 24 de volta, e assim que entrei no Lar chamei todos &#224; sala e dei-lhes a novidade.<br>Dado que a informa&#231;&#227;o era de confian&#231;a, chegou-se rapidamente a um consenso. Como se sabia que a PIDE visitava com frequ&#234;ncia as casas de quem sa&#237;a clandestinamente do pa&#237;s, era necess&#225;rio descobrir se ele teria deixado alguma coisa no quarto que fosse necess&#225;rio fazer desaparecer. E l&#225; fomos passar revista ao quarto do L.F.<br>Do que estava &#224; vista, nada de comprometedor. Alguns ensaios ou romances mais &#8220;subversivos&#8221; misturados com os livros de matem&#225;tica, f&#237;sica e engenharia n&#227;o seriam de molde a entusiasmar qualquer agente da PIDE que nos viesse fazer uma visita. Era o tipo de literatura que qualquer livreiro mantinha debaixo do balc&#227;o para venda aos clientes conhecidos. At&#233; que abrimos a gaveta da mesa e demos com os restos do trabalho que o nosso colega tinha desenvolvido com vista &#224; sua planeada sa&#237;da do Pa&#237;s. <br>Durante as longas horas de ins&#243;nia, quando era em geral a &#250;nica pessoa acordada na casa, L.F.&#160; tinha dedicado a sua actividade a sucessivas tentativas de falsifica&#231;&#227;o de um carimbo da PIDE. Como devido ao seu cadastro nunca lhe dariam autoriza&#231;&#227;o para sair do pa&#237;s, precisava passar a salto a fronteira portuguesa, mas ter no passaporte o carimbo de sa&#237;da, para n&#227;o ter problemas nas fronteiras seguintes.<br>No in&#237;cio tentou fabricar o carimbo em chumbo, que &#233; um material d&#250;ctil e f&#225;cil de cortar. Usando como cadinho a tampa de uma lata de graxa para sapatos colocada sobre o bico do fog&#227;o, colocou l&#225; dentro aparas de chumbo que fundiu com relativa facilidade. A ideia era usar a superf&#237;cie do l&#237;quido, depois de solidificada, para "esculpir" o carimbo. Mas as impurezas que vem &#224; superf&#237;cie quando se fundem metais tornavam a superf&#237;cie irregular, e a tentativa n&#227;o teve sucesso. Soubemos mais tarde que ele tinha feito v&#225;rias perguntas sobre o assunto a J.C., assistente de Metalurgia, que muito pedagogicamente lhe tinha fornecido a explica&#231;&#227;o completa do fen&#243;meno, sem a m&#237;nima desconfian&#231;a quanto &#224; finalidade das quest&#245;es colocadas.<br>N&#227;o sabemos se ter&#225; feito outras tentativas, mas na gaveta encontr&#225;mos sinais da solu&#231;&#227;o adoptada: dois passaportes com as folhas de identifica&#231;&#227;o arrancadas, e cujas p&#225;ginas tinham sido usadas para ensaiar os diversos carimbos que ele fora desenvolvendo. E a solu&#231;&#227;o encontrada tinha tanto de simples como de engenhosa.<br>Tinha cortado em <i>stencil</i> &#8211; material ainda nessa altura muito usado como matriz para policopiar documentos &#8211; as letras e n&#250;meros do carimbo. Ao passar tinta pelo lado de cima, a tinta que atravessava os cortes produzia nas folhas do passaporte uma marca um pouco esborratada, como a originada por um carimbo com muito uso. De notar que o carimbo tinha data, pelo que a opera&#231;&#227;o final teve de ser feita quando ele j&#225; tinha a certeza absoluta sobre o dia da partida.<br>Tenho por vezes imaginado o seu labor solit&#225;rio, na casa adormecida, as suas m&#227;os cortando o <i>stencil</i>, passando a tinta, olhando o resultado, rejeitando-o como imperfeito, tentando outra vez, cada um daqueles pequenos gestos uma min&#250;scula contribui&#231;&#227;o para um trajecto pessoal, convergente com muitos outros caminhos percorridos por muita outra gente.<br>Queim&#225;mos todo aquele material e fomos deitar-nos.<br>No dia seguinte fomos contactados pelo seu &#8220;testamenteiro&#8221; &#8211; nome dado &#224; pessoa, em geral um familiar ou amigo pr&#243;ximo, que ficava encarregada de recolher e dar destino aos pertences de quem se ia embora. Era um amigo dele que n&#227;o era aluno do T&#233;cnico, pelo que um de n&#243;s falou com a direc&#231;&#227;o da Associa&#231;&#227;o, para sabermos o n&#250;mero do cacifo de L.F., e como n&#227;o havia chave, teve que ser arrombado. O material que a&#237; encontr&#225;mos tinha um &#8220;conte&#250;do liter&#225;rio&#8221; um pouco mais &#8220;sens&#237;vel&#8221; do que o existente no quarto; ajud&#225;mos o testamenteiro a arrumar tudo numa mala que trouxera, e ele l&#225; foi, cumprindo certamente as instru&#231;&#245;es que tinha recebido.<br>Os dias foram passando, e nunca cheg&#225;mos a receber qualquer visita indesejada. Mas ainda tiveram de decorrer alguns anos at&#233; que o parar de um carro &#224; noite na rua ou o toque da campainha da porta a desoras passasse a causar uma reac&#231;&#227;o diferente da que provocava nesses anos cinzentos.<br><br><i><span>Texto escrito para um concurso intitulado "Est&#243;rias para 100 anos de Hist&#243;ria" no &#226;mbito das comemora&#231;&#245;es dos 100 anos do Instituto Superior T&#233;cnico.</span></i>]]></description>
		
		
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		<title>Das palavras o espaço ::</title>
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		<pubDate>Sat, 22 Dec 2012 23:58:09 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<a href="http://fromwords.blogspot.com/"><img src="http://fantasticas.odisseias.net/images/das_palavas_o_espaco.png" alt="Das palavras o espa&#231;o" align="right"></a><br><h1>Os anos cinzentos: ficar ou partir</h1><i>Descri&#231;&#227;o de um epis&#243;dio verdadeiro. Quem assistiu lembrar-se-&#225;&#8230; Um exemplo das v&#225;rias vidas de que era tecida a vida de um estudante do T&#233;cnico nos anos cinzentos&#8230;</i><br><br><br>Durante parte da minha vida de aluno do T&#233;cnico morei no Lar da Associa&#231;&#227;o de Estudantes (hoje intitulado Rep&#250;blica A Desordem dos Engenheiros). Era uma experi&#234;ncia pr&#225;tica de auto-governo aquela que ent&#227;o t&#237;nhamos naquele 5&#186; andar da Avenida Almirante Reis. Desassete estudantes de diversos cursos e anos, com diferentes origens geogr&#225;ficas e sociais, partilhando alegrias e tristezas, medos e esperan&#231;as. A minha forma&#231;&#227;o foi certamente muito influenciada por todos os colegas com quem vivi aqueles anos, de muitos dos quais fiquei amigo para o resto da vida. E n&#227;o &#233; de estranhar que as ideias dominantes naquela casa fossem dos diversos matizes de esquerda.<br>(No 4&#186; andar, logo abaixo de n&#243;s, era um lar de idosas da par&#243;quia local. A coexist&#234;ncia era pac&#237;fica; sempre que faz&#237;amos uma festa, onde se previa um n&#237;vel de ru&#237;do superior ao habitual, l&#225; ia uma delega&#231;&#227;o bater &#224; porta das &#8220;velhinhas&#8221; pedir antecipadamente desculpa pelo inc&#243;modo que ir&#237;amos causar. E nunca tivemos uma resposta que n&#227;o fosse: &#8220;Fazem bem, voc&#234;s s&#227;o jovens, t&#234;m que se divertir&#8230;&#8221;. Em contrapartida, sempre que encontr&#225;vamos uma delas no r&#233;s-do-ch&#227;o, com o cesto das compras, a olhar desconsolada para a porta do elevador com o letreiro &#8220;Avariado&#8221; &#8211; o que acontecia com bastante frequ&#234;ncia &#8211; &#233;ramos n&#243;s que transport&#225;vamos o cesto at&#233; ao 4&#186; andar. Um bom exemplo de conviv&#234;ncia inter-geracional!)<br>Um dos residentes, L.F., j&#225; conhecia a pol&#237;cia pol&#237;tica &#8211; e a PIDE a ele, naturalmente. N&#227;o me recordo se tinha chegado a ir a julgamento, mas durante a sua deten&#231;&#227;o tinha sido submetido &#224; famigerada tortura do sono durante 6 dias. Entre v&#225;rias sequelas, tinha ficado afectado por ins&#243;nias persistentes, s&#243; conseguia adormecer pelas seis ou sete da manh&#227;, e dormia toda a manh&#227; e parte da tarde. O seu "hor&#225;rio de funcionamento" era assim bastante diferente dos restantes utentes do Lar.<br>Por essa altura eu fazia parte do Coro da Academia dos Amadores de M&#250;sica, ainda dirigido por Lopes Gra&#231;a. Os membros do coro constituiam um conjunto bastante heterog&#233;neo, alguns&#160; licenciados, empregados de escrit&#243;rio, oper&#225;rios, donas de casa, alguns estudantes. E &#233; precisamente numa noite de ensaio, na sede da Academia na Rua Nova da Trindade, que um desses estudantes, dirigente associativo na Faculdade de Ci&#234;ncias, me diz: "Conheces o L.F.? Pirou-se! J&#225; est&#225; na B&#233;lgica."<br>"O L.F.? Mas esse tipo mora l&#225; no Lar!"<br>N&#227;o devo ter estado muito atento durante o resto do ensaio. Peguei o el&#233;ctrico 24 de volta, e assim que entrei no Lar chamei todos &#224; sala e dei-lhes a novidade.<br>Dado que a informa&#231;&#227;o era de confian&#231;a, chegou-se rapidamente a um consenso. Como se sabia que a PIDE visitava com frequ&#234;ncia as casas de quem sa&#237;a clandestinamente do pa&#237;s, era necess&#225;rio descobrir se ele teria deixado alguma coisa no quarto que fosse necess&#225;rio fazer desaparecer. E l&#225; fomos passar revista ao quarto do L.F.<br>Do que estava &#224; vista, nada de comprometedor. Alguns ensaios ou romances mais &#8220;subversivos&#8221; misturados com os livros de matem&#225;tica, f&#237;sica e engenharia n&#227;o seriam de molde a entusiasmar qualquer agente da PIDE que nos viesse fazer uma visita. Era o tipo de literatura que qualquer livreiro mantinha debaixo do balc&#227;o para venda aos clientes conhecidos. At&#233; que abrimos a gaveta da mesa e demos com os restos do trabalho que o nosso colega tinha desenvolvido com vista &#224; sua planeada sa&#237;da do Pa&#237;s. <br>Durante as longas horas de ins&#243;nia, quando era em geral a &#250;nica pessoa acordada na casa, L.F.&#160; tinha dedicado a sua actividade a sucessivas tentativas de falsifica&#231;&#227;o de um carimbo da PIDE. Como devido ao seu cadastro nunca lhe dariam autoriza&#231;&#227;o para sair do pa&#237;s, precisava passar a salto a fronteira portuguesa, mas ter no passaporte o carimbo de sa&#237;da, para n&#227;o ter problemas nas fronteiras seguintes.<br>No in&#237;cio tentou fabricar o carimbo em chumbo, que &#233; um material d&#250;ctil e f&#225;cil de cortar. Usando como cadinho a tampa de uma lata de graxa para sapatos colocada sobre o bico do fog&#227;o, colocou l&#225; dentro aparas de chumbo que fundiu com relativa facilidade. A ideia era usar a superf&#237;cie do l&#237;quido, depois de solidificada, para "esculpir" o carimbo. Mas as impurezas que vem &#224; superf&#237;cie quando se fundem metais tornavam a superf&#237;cie irregular, e a tentativa n&#227;o teve sucesso. Soubemos mais tarde que ele tinha feito v&#225;rias perguntas sobre o assunto a J.C., assistente de Metalurgia, que muito pedagogicamente lhe tinha fornecido a explica&#231;&#227;o completa do fen&#243;meno, sem a m&#237;nima desconfian&#231;a quanto &#224; finalidade das quest&#245;es colocadas.<br>N&#227;o sabemos se ter&#225; feito outras tentativas, mas na gaveta encontr&#225;mos sinais da solu&#231;&#227;o adoptada: dois passaportes com as folhas de identifica&#231;&#227;o arrancadas, e cujas p&#225;ginas tinham sido usadas para ensaiar os diversos carimbos que ele fora desenvolvendo. E a solu&#231;&#227;o encontrada tinha tanto de simples como de engenhosa.<br>Tinha cortado em <i>stencil</i> &#8211; material ainda nessa altura muito usado como matriz para policopiar documentos &#8211; as letras e n&#250;meros do carimbo. Ao passar tinta pelo lado de cima, a tinta que atravessava os cortes produzia nas folhas do passaporte uma marca um pouco esborratada, como a originada por um carimbo com muito uso. De notar que o carimbo tinha data, pelo que a opera&#231;&#227;o final teve de ser feita quando ele j&#225; tinha a certeza absoluta sobre o dia da partida.<br>Tenho por vezes imaginado o seu labor solit&#225;rio, na casa adormecida, as suas m&#227;os cortando o <i>stencil</i>, passando a tinta, olhando o resultado, rejeitando-o como imperfeito, tentando outra vez, cada um daqueles pequenos gestos uma min&#250;scula contribui&#231;&#227;o para um trajecto pessoal, convergente com muitos outros caminhos percorridos por muita outra gente.<br>Queim&#225;mos todo aquele material e fomos deitar-nos.<br>No dia seguinte fomos contactados pelo seu &#8220;testamenteiro&#8221; &#8211; nome dado &#224; pessoa, em geral um familiar ou amigo pr&#243;ximo, que ficava encarregada de recolher e dar destino aos pertences de quem se ia embora. Era um amigo dele que n&#227;o era aluno do T&#233;cnico, pelo que um de n&#243;s falou com a direc&#231;&#227;o da Associa&#231;&#227;o, para sabermos o n&#250;mero do cacifo de L.F., e como n&#227;o havia chave, teve que ser arrombado. O material que a&#237; encontr&#225;mos tinha um &#8220;conte&#250;do liter&#225;rio&#8221; um pouco mais &#8220;sens&#237;vel&#8221; do que o existente no quarto; ajud&#225;mos o testamenteiro a arrumar tudo numa mala que trouxera, e ele l&#225; foi, cumprindo certamente as instru&#231;&#245;es que tinha recebido.<br>Os dias foram passando, e nunca cheg&#225;mos a receber qualquer visita indesejada. Mas ainda tiveram de decorrer alguns anos at&#233; que o parar de um carro &#224; noite na rua ou o toque da campainha da porta a desoras passasse a causar uma reac&#231;&#227;o diferente da que provocava nesses anos cinzentos.<br><br><i><span>Texto escrito para um concurso intitulado "Est&#243;rias para 100 anos de Hist&#243;ria" no &#226;mbito das comemora&#231;&#245;es dos 100 anos do Instituto Superior T&#233;cnico.</span></i>]]></description>
		
		
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		<title>Das palavras o espaço ::</title>
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		<pubDate>Fri, 14 Dec 2012 18:37:05 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[<a href="http://fromwords.blogspot.com/"><img src="http://fantasticas.odisseias.net/images/das_palavas_o_espaco.png" alt="Das palavras o espa&#231;o" align="right"></a><br><h1>Infinitamente Improv&#225;vel</h1>Mais dois microcontos meus foram ressuscitados <b><span><a href="http://infinitamenteimprovavel.blogspot.pt/">neste webzine</a></span></b> editado pelo Jorge Candeias.<br>S&#227;o eles <a href="http://infinitamenteimprovavel.blogspot.pt/2012/12/o-consumidor-esta-muito-desprotegido.html"><b><span>O Consumidor Est&#225; Muito Desprotegido</span></b></a> e <a href="http://infinitamenteimprovavel.blogspot.pt/2012/12/uma-noticia-geometrica.html"><b><span>Uma Not&#237;cia Geom&#233;trica</span></b></a>. <div><img width="1" height="1" src="https://blogger.googleusercontent.com/tracker/20529258-2790543143296664422?l=fromwords.blogspot.com" alt=""></div>]]></description>
		
		
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		<pubDate>Sat, 17 Nov 2012 22:40:13 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Empreendedorismo Inchelentisimo sinhor diretor da TVILi num jurnal que o sinhor profeçor Marselo Rebelo de Çouza ganha douze mil euros por converssar na TVI todas as semanas.Uma das coizas ke o Marçelo fala é dus livros e eu pençei que eu pudia f...]]></description>
		
		
		
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		<title>Das palavras o espaço ::</title>
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		<pubDate>Fri, 09 Nov 2012 17:34:42 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Lançamento...Será a 24 de Novembro, no Fórum Fantástico, tenho lá um conto, e estou na companhia de boa gente... ]]></description>
		
		
		
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		<pubDate>Sun, 21 Oct 2012 21:53:12 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[A revolta das palavrasO escritor escrevia para a gaveta.O escritor era um homem metódico. Todas as noites, antes de ir para a cama, abria a gaveta com uma pequena chave, depositava nela mais algumas folhas escritas e fechava novamente a gaveta.Dentro ...]]></description>
		
		
		
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		<title>Das palavras o espaço ::</title>
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		<pubDate>Sun, 21 Oct 2012 21:49:23 +0000</pubDate>
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					<description><![CDATA[Diálogo entre um blogue e o seu autor“Então como é?”“Como é o quê?”“Não escreves aqui há quase 100 dias…”“E então?”“Então, um blogue inactivo ao fim de 100 dias morre, e o seu fantasma tem como única ocupação incomodar d...]]></description>
		
		
		
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